16 de março de 2016

O pesadelo da Ciência. (Eugenia)


          
Francis Galton
 
A eugenia é um termo que está ligado à hereditariedade. No decorrer da história este termo causou muita polêmica, dividindo opiniões públicas. A eugenia não foi desenvolvida pelo Darwin, mas o seu livro contribuiu muito para isso.
            Esta teoria foi desenvolvida pelo primo do Darwin, o inglês Francis Galton (1822-1911), em 1860 durante uma forte crise nervosa, Galton encontrou consolo ao ler a obra “A origem das espécies”.  A seleção natural que se encontra no livro o inspirou a desenvolver uma teoria no estudo do ser humano e de suas potencialidades físicas e intelectuais. Uma forma de aperfeiçoar a espécie humana. Para a construção de sua teoria, Galton também utilizou os conhecimentos de Malthus e Lamarck. Francis Galton definiu a eugenia da seguinte maneira.

A eugenia pode ser definida como a ciência que trata daquelas agências sociais que influenciam, mental ou fisicamente, as qualidades raciais das futuras gerações (Galton, 1906, Pág. 3).

Livro: "Origem das espécies" Darwin.
 Ou seja, identificar as pessoas portadoras das melhores características e estimular a sua reprodução, e os que apresentam características degenerativas evitar que se reproduzem.  Tendo por nome de “eugenia” ou “bem nascido” em grego.
            Galton pretendeu estender as implicações da teoria “seleção natural”, acrescentando traços comportamentais, habilidades intelectuais, poéticas e artísticas, pois para ele estas características também seriam transmitidas dos pais aos filhos, não somente aquelas apresentadas por Darwin.
            Segundo Galton, tanto as características fisiológicas quanto os talentos, não poderiam ser apenas uma bela coincidência ou obra do acaso, mas sim a evidência de uma regularidade natural ou biológica.
            Anos mais tarde ele reuniu todo o seu material em uma obra intitulada “Hereditary genius” ( génio hereditário) 1869.
           

A polêmica da eugenia.

            Um grande equívoco desta teoria é classificar os homens em melhores ou piores, superiores ou inferiores. Determinado o tipo ideal para a transmissão hereditária, ou seja, indicando o caminho para a transmissão das características desejadas às gerações seguintes.
            Os defensores da eugenia na Inglaterra passaram a ver as classes pobres como ameaças à ordem vigente, devendo a sua procriação ser regulada. A eugenia alcançou o status de movimento mundial em torno da boa procriação e o Brasil não ficou fora deste discurso, tendo muitos adeptos nas décadas de 20, 30 e 40. Um dos principais canais de expressão da eugenia foi a Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM), no Rio de Janeiro, agregando muitos dos geneticistas, psiquiatras, médicos, políticos e intelectuais mais reconhecidos da época.
            A (LBHM) procurava-se justificar cientificamente a necessidade de medidas eugenistas coletivas em prol da construção de uma nação brasileira forte e saudável. A eugenia era considerada a chave magna da regeneração humana, estando os seus desígnios relacionados ao “estudo e aplicação das questões da hereditariedade, descendência e evolução, bem como as questões relativas às influencias dos meio econômicos e sociais.”(Kehl R 1929. Pág.1)
            O ápice da eugenia foi com os nazistas, com o objetivo de eliminar da sociedade qualquer tipo de pessoa que apresentasse alguma deficiência mental ou física, bem como aperfeiçoar geneticamente uma geração perfeita de homens e mulheres, adequando à raça ariana.  
Durante a década de 30, uma série de exames antropométricos foram realizados na Alemanha nazista para catalogar características físicas da população. O célebre eugenista Otmar von Verschuer em ação
            Para “purificar” a sociedade germânica, a eliminação daqueles “seres indesejáveis” seria necessário, inclusive aqueles que viviam em asilos, hospícios e até mesmo crianças deficientes. Como relata o historiador Philippe Burrin em seu livro “Hitler e os Judeus.”
            Hitler e a sua “elite eugenista” faziam os experimentos para a sua “solução final”. Diz Burrin:
[...] Solicitado por um casal que lhe pedia para autorizar a morte do filho incurável, Hitler respondeu favoravelmente. Decidiu então que o mesmo destino seria imposto sem apelação a todos os recém-nascidos portadores de deformações ou anormais. No dia 18 de agosto de 1939, uma circular do Ministério do Interior obrigava os médicos e parteiras do Reich a declarar as crianças que sofriam de uma deformidade. Reunidos em seções especiais, elas foram mortas pela injeção de drogas ou pela fome.” (BURRIN, Philippe. 1990. p. 68).

            Em outro trecho do livro, Burrin destaca a decisão de aplicar o método eugenista, que era cinicamente tratado pelos nazistas como “eutanásia”, a doentes mentais. Descreve o autor:

No início do outono de 1939, Hitler decidiu pôr fim também à 'existência indigna de ser vivida dos doentes mentais'. Uma ordem correspondente foi dada inicialmente de forma verbal, depois, no decorrer do mês de outubro, por meio de uma carta cuja data foi antecipada para 1° de setembro de 1939. Hitler não confiou a direção desta operação, impropriamente qualificada de “eutanásia”, a Himmler, mas a uma de suas secretárias, a chancelaria do Führer, cuja tarefa consistia em princípio em receber as solicitações particulares.” (BURRIN, Philippe. 1990. p. 68-69).

            Os oficiais de Hitler passaram a desenvolver mecanismos sigilosos de aplicação da eugenia, desde a elaboração de listas de pacientes esquizofrênicos, epilépticos, paralíticos e psicopatas até a criação de uma empresa destinada a transportar as pessoas dos hospitais para os centros de eutanásia, onde seriam mortas por gás tóxico. Continua Burrin:

[...] Depois de algumas experiências, foi estabelecido um procedimento uniforme, que consistia em mandar que as vítimas se despissem ou despi-las e levá-las numa sala com falsas duchas onde elas seriam asfixiadas por monóxido de carbono. Os cadáveres eram queimados num forno crematório, depois que lhes eram arrancados todos os dentes de ouro. Um atestado de óbito era enviado às famílias após um processo de complicada camuflagem, a fim de evitar o anúncio simultâneo de inúmeros decessos numa mesma localidade. Em pouco menos de dois anos, a empresa fez mais de 70 mil vítimas. (BURRIN, Philippe. 1990. p. 69).

            Na mesma época em que praticavam essas atrocidades, Hitler e seu alto escalão de oficiais também preparavam o isolamento e o extermínio de judeus, ciganos, poloneses e outros tipos de pessoas que julgavam inferiores ou, de algum modo, nocivas. Ao fim da guerra, em 1945, seis milhões de pessoas haviam sido mortas nos campos de concentração.

            A eugenia pode ser dividida em dois grupos, a eugenia positiva e a negativa.
            Resumidamente a “eugenia positiva” seria a troca de material genético entre indivíduos de linhagem “superior.” Por exemplo: o casamento somente entre indivíduos da raça ariana como propôs Hitler.
            “Eugenia negativa” seria a eliminação dos indivíduos considerados inválidos através da eutanásia, do aborto etc.
            Galton utilizou o termo eugenia para expressar a preocupação com a saúde das futuras gerações, mas com o decorrer da história, este termo se desvirtuou  e lhe permitiu associar o novo termo à ideia de diferenciação dos seres humanos em raças distintas para determinar um ideal de tipo físico ou raça a ser alcançado pela eugenia.

Bibliogragia
BLACK, E. A guerra contra os fracos. Tradução T. Magalhães. São Paulo: A Girafa, 2003.
BURRIN, Philippe. Hitler e os Judeus – Gênese de um genocídio. (trad. Ana Maria Capovilla). Porto Alegre, L&PM, 1990.
COUTO, R.C.C de M. Eugenia, loucura e condição feminina. Cad Pesqui 1994.

FERNANDES. C. Eugenia Nazista. História do mundo. Disponível em: <http://historiadomundo.uol.com.br/idade-contemporanea/eugenia-nazista.htm> Acesso em: 16 de março de 2016.

GALTON, F. Hereditary talent and character. Macmillan’s Magazine. 1865
GALTON, F. Restriction in marriage. Sociological Papers, 2, p. 3-17, 49-51, 1906. Disponível em: <http://www.galton.org/essays/1900-1911/galton-1906-eugenics.pdf>. Acesso em: 16 Mar. 2016.    
KEHL, R. O nosso boletim, propósitos. Bol de Eugenia 1929 janeiro; 1(1):1.
MAI, L.D. Angerami ELS. Eugenia negativa e positiva: significados e contradições. Rev Latino-am Enfermagem 2006 março-abril; 14(2):251-8. http://www.scielo.br/pdf/rlae/v14n2/v14n2a15.pdf
PEÁLEZ, R. Introdução. In: Galton, F. Herencia y eugenesia. Tradução, introdução e notas R. A. Peález. Madrid: Alianza Editorial, 1988.

STEPAN, N. L. The hour of eugenics: race, gender, and nation in Latin América. Ithaca/London: Cornell University Press, 1991. 

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